O BUDISMO E A NEGAÇÃO DO ATMAN (ANATMAN)
Eis resumida a posição budista em sua singularidade, que consiste fundamentalmente a identifica à ideia de Si mesmo e aquela de ego, mas de maneira a reconduzir a primeira ao nível da segunda. Em outros termos o budismo retoma e acentua esta desvalorização do ego que estava timidamente em gérmen nos Upanixades, ao mesmo tempo que suprime o termo de referência transcendente em relação ao qual o ego podia ser depreciado. Notável é a reviravolta pela qual o fenômeno reputado «natural» do ego é apresentado como um artefato, como o subproduto psíquico de uma construção especulativa gratuita. O budismo não deixará então e retorno de identificar o atman «especulativo» ao ego psicológico indevidamente hipostasiado. Neste círculo vicioso de uma ilusão psicológica e de uma construção especulativa repousando uma sobre a outra reconhece-se sem dificuldade o ciclo mesmo da transmigração, da servidão. E conclui-se que os dois termos devem ser abandonados juntos para que se produza a liberação. Mas quem constrói, quem está preso pela ilusão, quem é liberado, se não existe nenhum ego, nem nenhum Si mesmo? Estes paradoxos, sobre os quais as filosofias bramânicas não deixarão jamais de insistir, podem parecer inerentes à doutrina do anatman, sobretudo quando ela é examinada isoladamente, como uma espécie de curiosidade metafísica. Tendem a se dissipar, ou pelo menos se atenuar, assim que, além da letra desta doutrina, busca-se determinar a intenção religiosa específica da qual procede e o lugar que ocupa no conjunto da visão budista do mundo.